ENTREVISTA DE ANDRE CHRISTOVAM
Coloco aqui um trecho de entrevista do André Chrisóvam para a revista Blues n´ Jazz. André foi um dos pioneiros da guitarra bluseira no país. O entrevistador é o Ugo Medeiros. Segue aí.
Qual foi o tipo de blues mais importante para a sua formação, o americano ou o inglês? Como você faz esta distinção? O inglês foi mais importante, porém o americano é a fonte. As deficiências técnicas da Inglaterra fizeram com que eles criassem aquele som. O que me levou à guitarra foi o blues inglês; jamais teria me tornado músico se tivesse ouvido um disco do B.B King. Se não fosse pelo Cream, dificilmente teria me interessado pela guitarra.
O Eric Clapton é o seu grande ídolo? Sem dúvida. Porém, não tenho nenhuma semelhança sonora com ele. O que busco dele, que acho mais genial, é a habilidade de transitar sobre o tempo, o senso de colocação e de fraseado que ele tem. O timing dele é um dos mais perfeitos, e isso desde os tempos de Cream.
Pode-se dizer que o rock te levou ao blues? Com certeza, assim como a grande maioria dos brancos no planeta. Com exceção do Michael Bloomfield, todos começaram no rock'n'roll. Não, me engano. O Michael começou por causa do Elvis, então, não, ninguém que eu me lembre (risos).
Como foi o seu primeiro contato com a guitarra? O meu primeiro instrumento foi o violão clássico. Fiz três anos de violão clássico, mas sempre querendo uma guitarra. Meu primeiro contato com a guitarra deu-se em 75, quando já tocava há mais ou menos uns três anos. Ganhei uma Giannini Stratosonic e alguns meses depois comprei uma Fender Stratocaster. Finalmente, após alguns meses, consegui uma Les Paul. Esta era, de fato, a guitarra que queria para fazer um som parecido com o que o Clapton fazia no Bluesbreakers e o Jeff Beck no “Truth”. Ao mesmo tempo, queria o material que o McLaughlin e o Page usavam. Gostava do Cream e da Mahavishnu; gostava de música tocada com grande eloquência e habilidade de navegação em meio à improvisação. Estas duas bandas tinham muito disso.
Você já está na estrada há mais de 25 anos. Você se considera um dos precursores do blues no Brasil? Para ser mais exato, 31 anos. Eu não me lembro de muita gente fazendo exatamente blues; lembro, sim, de pessoas usando elementos do blues de forma bem tocada. Lembro do Tony Osanah, que cantava e tocava gaita e guitarra, e da Rosa Maria, cantando uma música gospel, mas também com elementos blues. O primeiro brasileiro que vi tocar bem guitarra foi o Cândido Serra, inclusive tive aula com ele no CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical). Ele morava em Chicago, e depois veio pra São Paulo. Meu contemporâneo, tem o Celso Blues Boy, que entrou em carreira solo antes de mim. Ele tocava com o Sá & Guarabyra, onde ganhou o apelido “Blues Boy”, e os primeiros discos deles são todos voltados pro rock'n'roll, com uma guitarra nervosa e blueseira. Nesta altura, por volta de 1976, eu já estava com o Fickle Pickle (banda de rock antes da carreira solo) e bem envolvido com o blues. Quando fui para os EUA, final de 81/começo de 82, ficou claro que eu queria, realmente, me dedicar ao blues.
Você é conhecido nos EUA. Você acha que o bluesman brasileiro começa a ser visto de outra forma no exterior? Bem melhor que o músico de rock brasileiro. Existem quatro ou cinco músicos de rock brasileiro que são levados a sério pelos roqueiros americanos, enquanto há um número maior de músicos de blues com um respaldo interessante. O Flávio Guimarães e o Nuno Mindelis são muito queridos lá fora. O Igor Prado começa a ganhar respeito. Não importa a cor ou nacionalidade para o blues, uma língua muito próxima ao coração. Se você falar, acaba sendo aceito. Sem dúvida, o pessoal do blues está melhor que o do rock.
Escrito por Snow às 15h43
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