Mister Buddy Guy fez um show impressionante em São Paulo, no HSBC Brasil. O som não estava aquela maravilha, mas um pouco de sujeira no Blues tocado por Buddy até que vai bem. A sua guitarra estava no talo e sua banda toda acompanhou o atual rei de Chicago.
Abriu o show com Best Dawn Fool, música do disco novo Skin Deep. Uma beleza! Território perfeito para os solos encapetados de Buddy. Em seguida fez Hoochie Coochie Man, do mestre de Chicago antes de Buddy, mister Muddy Waters.
Não me recordo de todas as músicas nem da seqüência, mas os pontos altos do espetáculo foram vários. Conquistou a platéia com Someone Else Is Steppin In (Sleepin Out Sleepin In), fazendo uma platéia que obviamente não conhecia a música, cantar.
Com muito tempo de palco e total controle sobre sua guitarra e seu poder vocal, Buddy é pura diversão no palco. Faz o que quer a hora que quer. Aliás, seu canto impressiona muito, com seus 70 anos, sua voz atinge graves de trovão e agudos rasgantes sem perder a expressão da música. É uma aula de feeling.
Fever teve uma bela versão. A canção ficou famosa com Madonna e Buddy fez uma interpretação bem bacana. Os solos eram divididos com seu pianista, brilhante e preciso. Seu guitarrista base fez apenas um solo, esmirilhando a guitarra e até fazendo ela girar como se fosse uma hélice de avião.
Aliás, a banda toda é meio caricata. O excelente baterista parece um gigante, aqueles gordos enormes que não perdem o time de jeito nenhum. O baixista parece um tiozinho de boteco, sempre mandando muito, mas bem tranquilão. O guitarra base, sempre ao lado do baixista, parece um rapper. O pianista, o único branco do time, gordinho e de cavanhaque, humilha quando toca.
No meio do show, Buddy tocou Skin Deep, música que dá nome ao seu novo disco. Foi o único momento mais baixo do show. A canção, sobre igualdade racial, é uma baladinha soul que quebrou o ritmo Festa que o show tinha.
O famoso passeio de Buddy no meio do público rolou ao som de Albert King. Deu uma baita volta solando no meio público e conversando com as pessoas.
De volta ao palco, um medley em homenagem a outros guitarristas. Primeiro, Eric Clapton e uma música do Cream. Tocava um trecho da música e em seguida, de repente, parava de tocar e fazia algo como “Buddy plays like this” e tocava ao seu estilo, uma outra música. Em seguida, trecho de Boom Boom de John Lee Hooker, aí sim, o público cantou com força. Me impressionou tanto a forma como a banda tocou, alto e sem dó, como a reação do público, que conhecia bem a música. Buddy emendou outra sua e voltou com a música “de um outro guitarrista que vocês devem conhecer” e soaram os acordes de Voodoo Child de Jimi Hendrix. O público ficou em pé e não sentou mais.
A música Feels Like Rain, uma balada de Buddy, cantando junto com o público, ficou bem boa ao vivo, bem melhor que no disco.
O bis do show teve Dawn Right I´ve Got The Blues, uma das melhores canções da fase moderna de Buddy, outro medley que teve o clássico de Ray Charles What I´d Say e fechou com Sweet Home Chicago para o delírio da rapaziada.
Na jam final da banda, Buddy jogou palhetas para o público como faz tradicionalmente e de repente ficou lá na beira do palco dando autógrafos! Sim, muitos autógrafos, durante vários minutos. Até guitarras apareceram para o mestre do Blues de Chicago rabiscar.
Foi um show impressionante, Buddy Guy sempre entrega o que promete, que é uma interpretação verdadeira do Blues, uma voz impecável, domínio total do público e da guitarra, solos incríveis e um encontro do antigo Blues que ele viveu com a nova roupagem do Blues. Buddy consegue ser um dos mais modernos bluesmen em atividade, mesmo sendo de uma geração mais velha. Ele sim, sabe se divertir e tem o talento de espalhar essa diversão para sua platéia.